ANÁLISE: Covid-19 expõe fim da imparcialidade na mídia

 ANÁLISE: Covid-19 expõe fim da imparcialidade na mídia

Hand holding a microphone conducting a business interview or press conference

A cobertura jornalística da pandemia do novo coronavírus expôs uma das maiores deficiências da imprensa brasileira: a falta da imparcialidade, que é o principal requisito para a prática do bom jornalismo. Esse cenário tende a aumentar os risco de imagem para as empresas.

O Covid-19 não foi a causa da mudança de comportamento de parte significativa dos órgãos de imprensa nacionais, mas funcionou como o catalizador de um processo iniciado em 2018, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

Algumas explicações para o cenário foram levantadas por analistas. Uma delas seria a de que emissoras de televisão e jornais de grande porte teriam entendido que a continuidade de seus negócios poderia ser ameaçada por atos do novo presidente.

Bolsonaro prometia fazer mudanças na distribuição de verbas para propaganda e ser mais rigoroso na concessão de licenças para emissoras de televisão.

Outra explicação levantada, mas não comprovada, apontava a suposta participação de políticos opositores do presidente no controle acionário de veículos de imprensa de grande porte.

Independente de causas, claramente houve uma recente mudança no perfil da cobertura jornalística nacional. Enquanto um grupo de veículos tradicionais brasileiros fazia forte oposição ao governo, um nicho de inclinação pró-governo, formado especialmente por jornais, emissoras de rádio e websites menores começou a ganhar espaço.

Em paralelo a essas duas tendências, emissoras de TV de âmbito nacional mas sem liderança de mercado tentavam manter a imparcialidade, combinando cobertura positiva e negativa do governo.

A cobertura jornalística da pandemia acirrou e tornou evidente essa divisão. Salvo exceções, a imprensa se dividiu entre os veículos contrários ao presidente, que defendiam o isolamento geral e incondicional da população, e os que levavam em conta a possibilidade de que tais medidas possam não ser tão efetivas e também causar problemas econômicos – visão mais alinhada com o governo.

Sem entrar na discussão do mérito da questão, o fato é que muitas empresas tomaram a decisão de também se posicionar, tanto de um lado, quanto de outro. Elas passaram a figurar nas reportagens ou compraram espaço de mídia nos veículos para defender determinado ponto de vista.

Algumas o fizeram com anúncios pagos e propaganda, em geral apoiando a retomada das atividades comerciais com cuidados e responsabilidade. Outras criaram e pagaram pela veiculação de peças incentivando a população a permanecer em casa.

A maior parte, porém, adotou posição mais neutra, destinando grandes volumes de verbas para doações e compras de insumos relacionados ao combate ao Covid-19 – em uma suposta tentativa de gerar mídia não paga por meio de cobertura jornalística para melhorar sua imagem no mercado.

Ainda não é possível mensurar a efetividade de cada uma dessas ações. Contudo, o posicionamento pró ou contra isolamento social adotado por algumas empresas aumenta significativamente seu risco de imagem, ou seja, o risco de diminuir a credibilidade de sua marca.

Isso porque, nos sistemas democráticos, a opinião popular oscila muito de acordo com os discursos mais sedutores.

A atraente possibilidade de ganhar mais clientes e aumentar a reputação investindo em um ou outro discurso pode se tornar uma armadilha – especialmente para pequenas e médias organizações, que não possuem recursos para fazer diferença em um processo de mudança cultural.

No atual ambiente de ânimos acirrados, para esses players menores, a resposta pode ser buscar aquele que deveria ser o principal objetivo da grande imprensa: a imparcialidade.

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