Brasil sofre risco de contágio com a crise argentina

Entre os países emergentes, Brasil é o que corre mais risco de impacto da crise argentina

Publicado em 16/09/2018, às 07h00

 

População protesta contra medidas de arrocho fiscal na Argentina / Foto: Juan Mabromata/AFP

População protesta contra medidas de arrocho fiscal na Argentina
Foto: Juan Mabromata/AFP

Adriana Guarda

A promessa de uma gestão fiscal mais responsável fez com que o empresário e político Mauricio Macri assumisse a presidência da Argentina, em dezembro de 2015, com a expectativa de colocar um ponto final nas crises enfrentadas pelo país ao longo das gestões Kirchner. Depois de completar mil dias na cadeira da presidência, o vizinho volta a enfrentar um cenário de recessão, inflação alta, hiperdesvalorização cambial e escalada da taxa de juros. A alternativa foi pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), com o compromisso de adotar novas medidas de austeridade. Entre os emergentes, o Brasil é apontado como o país mais suscetível ao contágio da crise argentina. Na avaliação de especialistas, a expectativa é de que os impactos ocorram no âmbito comercial e financeiro.

“Macri se comprometeu a fazer ajustes rápidos, mas sua estratégia estava excessivamente ancorada no acesso a financiamentos que não se concretizaram, graças ao cenário externo de aumento dos juros nos Estados Unidos, que atraiu o interesse dos investidores”, observa o pesquisador-sênior de Economia Aplicada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV, Livio Ribeiro. Esse movimento atingiu outras economias emergentes, a exemplo da Turquia, mas teve reflexo maior na Argentina, que tem 90% da sua dívida pública fixada em dólar e um volume pequeno de reservas internacionais.

O déficit nas transações com o exterior e a fuga de recursos do país fizeram com que o peso perdesse mais de 50% de seu valor ao longo deste ano. Entre as moedas do mundo, a argentina foi a que mais sofreu desvalorização. Enquanto em janeiro um dólar valia 19 pesos, este mês atingiu 40.

Essa forte volatilidade da moeda tem reflexos no comércio mundial. Em Pernambuco, com a Argentina respondendo por 40% do destino das exportações, as empresas sentem a queda nas compras de produtos e serviços. Fabricante de pisos, cerâmicas, revestimentos e porcelanato, a Pamesa assiste a uma redução das vendas no mercado. “Os importadores estão assustados com a flutuação cambial. Isso porque podemos vender em uma semana um produto com dólar a 35 pesos e uma semana depois chegar lá com a cotação a 50 pesos”, exemplifica o CEO da Pamesa, Marcus Ramos Júnior. Com fábrica em Suape, a companhia produz 1,2 milhão de metros quadrados por mês e exporta 25% desse total para 41 países, com a Argentina ocupando a quinta posição.

Para evitar o agravamento da crise, a Argentina voltou a lançar medidas austeras de controle, com taxação das exportações, corte de ministérios e gastos públicos, redução de subsídios em energia e transportes e redução de 50% nos investimentos públicos. Tudo isso tem provocado reações da população, que faz protestos e critica a intervenção do FMI. “A crise argentina chama atenção para a fragilidade financeira de outros emergentes, a exemplo do Brasil. Vivemos uma escalada da dívida pública e uma incerteza política que não permite o desenvolvimento econômico deslanchar”, afirma o professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco Ecio Costa.

TURISMO

Apesar da desvalorização do real frente ao dólar, que frustrou os planos de viagens internacionais dos brasileiros, a moeda brasileira ainda se mantém atrativa para quem quer viajar para a Argentina. “Felizmente para nós e infelizmente para eles, a paridade do poder de compra virou a nosso favor nos últimos cinco meses. Isso abriu uma janela de oportunidades para quem quer viajar para a Argentina, tornando o país mais atrativo”, destaca o consultor sênior no Grupo L&S, Leandro Lima Strasser. Se no início do ano um real era convertido em 5,70 pesos, pela cotação da última sexta-feira o valor já chegava a 9,57 pesos.

https://jconline.ne10.uol.com.br/canal/economia/pernambuco/noticia/2018/09/16/brasil-sofre-risco-de-contagio-com-a-crise-argentina-354844.php

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