Incêndio do Brasília Palace completa 40 anos; relembre o caso

Frequentadores e funcionários relembram dias de glamour e luxo no primeiro hotel da capital federal, consumido pelas chamas por causa de um curto-circuito em uma cafeteira, em 1978. Após restauração, ele foi reaberto só em 2006


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Poucos imaginariam que uma cafeteira esquecida na tomada após uma reunião seria a responsável por um dos eventos mais marcantes da história de Brasília. O incêndio que destruiu o terceiro andar do Brasília Palace Hotel na madrugada de 5 de agosto foi causado por um curto-circuito do eletrodoméstico e completa 40 anos amanhã. No dia do fato, o hotel estava com todos os 135 quartos ocupados. Não houve vítima, mas o incidente provocou o fechamento do primeiro estabelecimento de hospedagem da capital, aberto antes mesmo de a cidade ser inaugurada.
A cafeteira estourou por volta das 4h30, enquanto a maioria dos hóspedes dormia. O foco do fogo foi a sala de reuniões, na parte central do corredor. As chamas se alastraram pela madeira que revestia as paredes do hotel e consumiram móveis e itens de decoração. Enquanto a fumaça se espalhava pelos andares inferiores, funcionários tentavam controlar o fogo. A atuação não foi suficiente e os bombeiros precisaram intervir.
Alguns dos militares tiveram cortes nas mãos depois de darem socos nos vidros dos apartamentos para quebrar as janelas e facilitar a saída da fumaça e a entrada dos jatos d’água. Os hóspedes deixaram o prédio pela escada central, a única forma de acesso aos quartos, além dos elevadores. “Houve um pouco de dificuldade. Lembro-me de ajudar uma senhora recém-operada de cesariana. Ela e o bebê desceram enrolados em um lençol”, relata o gerente do hotel à época, João André da Silva, 71 anos.
Ele e um funcionário da manutenção eram os únicos trabalhadores do local naquela noite. O terceiro andar havia acabado de receber decoração nova. Tudo se perdeu. O vento dificultou a ação dos bombeiros e as correntes de ar a cada janela quebrada intensificavam as labaredas, extintas por volta das 11h.
João André permaneceu na função de gerente até o mês seguinte, quando o Brasília Palace fechou. “Aquele foi um 5 de agosto muito triste. Não sei o montante do prejuízo, mas sei que foi grande, uma vez que mandaram todos os funcionários embora e o Brasília Palace precisou encerrar as atividades. Assim ele permaneceu por mais de 20 anos”, lamenta o administrador de empresas.

Restauração

Hoje, João André é gerente-geral do Carlton Hotel, na área central de Brasília. Ele conta que o incidente serviu como ensinamento nos empregos que teve a partir dos anos seguintes. “Sou um apaixonado pelo Brasília Palace. Tive uma grande tristeza ao passar por ali e ver aquela casa fechada. Esse evento trouxe como lição a importância do aprimoramento em todos os sentidos de segurança, tanto para o empreendimento quanto para hóspedes.”
Apesar de estar em funcionamento, o hotel foi inaugurado oficialmente em 30 de junho de 1958,  com o Palácio da Alvorada. As ruínas do prédio, à beira do Lago Paranoá, permaneceram intactas por 28 anos. Em 2005, empresas vinculadas ao grupo Paulo Octávio desembolsaram mais de R$ 22 milhões para recuperar a estrutura e manter as características originais do hotel. A carcaça recebeu reforço e, no ano seguinte, o espaço foi reinaugurado. Athos Bulcão foi um dos convidados da cerimônia, na qual lançou dois painéis restaurados.

O hotel como lar

A história de João André da Silva (foto) no Brasília Palace teve início em 1964. Após perder o pai, vítima de uma leucemia aos 45 anos, ele deixou Cruzeiro da Fortaleza (MG), no início daquele ano, para estudar em Brasília e morar com o irmão, que estava na capital havia dois anos. A ideia do adolescente de 16 anos era voltar para a cidade mineira quando terminasse os estudos. Mas decidiu ficar após receber uma proposta de emprego no hotel. A mãe e as duas irmãs dele também vieram para a capital e adotaram Brasília como lar desde então.
João André começou como auxiliar de serviços gerais, passou pela função de saucier (responsável pelos molhos na cozinha) e trabalhou até chegar ao cargo de gerente. O administrador de empresas passou a morar no local. Casou-se no santuário Dom Bosco, cartão-postal da cidade, em dezembro de 1977, em uma cerimônia celebrada pelo então bispo auxiliar de Brasília Dom Ávila. A recepção dos convidados ocorreu no local que ele tão bem conhecia, o Brasília Palace. Morador do Lago Norte, João André tem dois filhos e três netos.
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