Roubos de carga migram para outras áreas; homicídios dolosos atingem o maior número no interior do RJ

Observatório da Intervenção mostra que cinco municípios registraram aumento de 497% nos casos de roubo de carga durante seis meses de intervenção federal na segurança pública.


Por Cristina Boeckel e Matheus Rodrigues, G1 Rio

 

Observatório da Intervenção faz balanço dos seis meses da Intervenção Federal no Rio

Observatório da Intervenção faz balanço dos seis meses da Intervenção Federal no Rio

Dados divulgados na manhã desta quinta-feira (16) pelo Observatório da Intervenção do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) mostram que, se os números dos roubos de carga diminuíram em algumas áreas do Estado do Rio de Janeiro, a criminalidade se expandiu por outros caminhos.

O documento, divulgado na manhã desta quinta-feira (16), mostra que os roubos de carga dispararam em outras áreas do estado, e o interior registrou o maior número de homicídios dolosos da história: 707. Também houve crescimento significativo no número de roubos a coletivos e transeuntes.

Os dados indicam uma migração para áreas mais pacatas do que a capital fluminense. Como sinal desse movimento, o Observatório da Intervenção aponta a área que envolve os municípios de Tanguá, Rio Bonito, Itaboraí, Silva Jardim e Cachoeiras de Macacu.

Registros de roubos dispararam nas Baixadas Litorâneas (Foto: Claudia Ferreira/G1)

Registros de roubos dispararam nas Baixadas Litorâneas (Foto: Claudia Ferreira/G1)

Entre 2003 e 2017, a média de roubos de carga nos meses de fevereiro e junho foi de 33,5 registros, segundo dados do Instituto de Segurança Pública. No ano de 2018, no mesmo período, foram registrados 200 roubos de carga na área, o que significa aumento de 497%, o maior valor já registrado pela região na série histórica.

As mortes por homicídios dolosos, roubos seguidos de morte, mortes em decorrência da ação de policiais e lesão corporal seguida de morte também deram um salto.

“No período da intervenção, houve 116 ocorrências, o maior total de toda a série histórica e quase o dobro da média dos anos anteriores, de 63 casos. Este território da região do Leste fluminense, com mais de 410 mil habitantes, que nos anos anteriores registrou taxa de letalidade violenta em torno de 10 a 15 por cem mil habitantes, no período de intervenção superou as taxas do Estado”, destaca o documento.

Roubos de rua e a ônibus

Os roubos de rua, por sua vez, também registraram aumento de quase 60% em relação ao ano passado. O relatório também mostra que, apesar da redução no número de roubos de cargas, os roubos a coletivos e a transeuntes aumentaram.

Entre fevereiro e junho de 2018, foram contabilizados 6.603 roubos em coletivos no Estado do Rio, sendo 3.873 casos na capital. A Baixada Fluminense registrou 1.787 ocorrências. Chamou a atenção dos pesquisadores os dados de Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita, que tiveram os maiores registros desde 2003.

O documento alerta que a taxa de mortes por ação policial cresceu desde 2017, tendo aumentado em 2018 – crescimento de 48,4%. Após a intervenção na segurança pública, pela primeira vez, desde 2003, que a taxa de mortes decorrentes de intervenção policial é maior na Baixada Fluminense do que na capital. O interior também apresentou os maiores números de toda a série.

Tabela mostra as mortes por 'auto de resistência' (Foto: Claudia Ferreira/G1)

Tabela mostra as mortes por ‘auto de resistência’ (Foto: Claudia Ferreira/G1)

Além disso, o interior também registrou um crescimento dos homicídios dolosos. Entre fevereiro e junho, foram contabilizados 707 casos, o maior total registrado para o interior.

O documento questiona ainda a eficiência nos gastos que levaram à queda dos roubos de carga “Os generais têm festejado a diminuição do roubo de cargas no estado, mas, em comparação com o ano anterior, essa redução foi de 9,5%, ao custo de R$ 46 milhões só em operações das Forças Armadas”, afirma o documento.

Falta de transparência

O documento aponta, com base no Plano Estratégico da Intervenção Federal, o número reduzido de ações voltadas para a área de inteligência, que representam 6% do total, enquanto há um grande número voltado para a aquisição de materiais e viaturas e ampliação do efetivo dos agentes de segurança.

Mesmo as medidas de melhora das forças de segurança foram consideradas insuficientes, já que andam lentamente. A reestruturação dos Batalhões da PM é citada como exemplo já que, seis meses após o início da intervenção somente quatro, dos 39 batalhões do Rio, passaram pelo processo.

O documento alerta que o processo de intervenção ocorre sem transparência, já que não existe um site que reúne as informações sobre o processo. Parte da coleta de dados feita pelo Laboratório da Intervenção foi realizada por meio de consultas ao Diário Oficial do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da União, à imprensa e redes sociais. Outras solicitações foram feitas às autoridades por meio da Lei de Acesso à Informação.

“Mesmo com a publicação do Planejamento Estratégico do Gabinete da Intervenção Federal, em 29 de maio, não há nenhum detalhamento de como esses recursos serão gastos e a quais objetivos serão relacionados. O Plano fala da suposta existência de um Plano de Execução Orçamentária da intervenção, o qual, entretanto, não está disponível ao público”, indicam os pesquisadores.

Observatório critica modelo da intervenção

A coordenadora do Observatório da Intervenção, Silvia Ramos, fez um balanço sobre o desempenho do Exército durante os seis meses de intervenção federal. Ela fez críticas ao modelo implantado que, segundo ela, prioriza as ações policiais e não investe em inteligência.

“Os número depois de seis meses são muito preocupantes. Os números mais sensíveis – que são mortes, mortes decorrentes de intervenção policial, chacinas, tiroteios e confronto – cresceram muito. Esse cenário cria um clima no Rio de Janeiro, que não é o de aumento de segurança. A intervenção tem utilizado durante esses meses um foco em operações militares, com tropas na rua, milhares de militares e policiais, e quase nada na área de inteligência”, disse ela.

“Quando a gente vê a apreensão de um fuzil, foi resultado de um confronto ou uma operação que tinha mil homens. A gente não tem visto fuzis sendo apreendidos antes de chegarem ao seu destino (…). É muito preocupante um cenário em que os indicadores mais sensíveis estão piorando e já uma política de segurança voltada para o confronto, tiroteio e pouca inteligência”, completou.

Ela afirmou ainda que a intervenção já gastou R$ 46 milhões durante esses meses. Segundo Silvia Ramos, o emprego dos recursos não está sendo produtivo.

“Cada operação que envolve as forças armadas custa em média mais de R$ 1 milhão e produz resultados muito frágeis. Como a apreensão de um ou dois fuzis, quando você tinha mil homens com fuzis na frente daquela comunidade”, destacou.

Ao analisar a redução dos índices de roubos de cargas, Silvia afirmou que esta não deveria ser uma prioridade da intervenção federal.

“Tem uma questão moral quando, depois de seis meses e investimento todo financeiro, comemora o fato de que os índices que estão caindo são os roubos de carga. Sem nem ao menos ter uma palavra de preocupação com o fato de que crimes contra a vida estão aumentando, principalmente na Baixada Fluminense e Região Metropolitana. Pode transmitir a impressão de que estão querendo atender aos ricos e empresários, ao invés de estar atendendo às áreas mais carentes do Rio”, disse Silvia.

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