Processo de Transferência de Riscos

Programas de Seguro

A contratação de programas de seguro é uma das formas de se “transferir” (compartilhar) o risco. Na realidade, o seguro irá garantir a reposição da perda e a preservação do fluxo de caixa da empresa, evitando-se a descapitalização para repor a perda de algum sinistro. Como opção alternativa ao seguro, temos a mutualização que consiste num fundo comum feito por empresas ou associações para fazer frente a algum risco que venha concretizar-se. A lógica é a mesma do seguro, contudo, diminui-se o custo devido à redução das taxas de administração. Tal prática tem sido comum para empresas do mesmo segmento e que tem dificuldade na colocação de alguns riscos específicos no mercado ou empresas de um mesmo grupo. Contudo, cabe lembrar que este processo não é um processo simples e exige conhecimento técnico específico para a sua implantação.

Por vezes a prática de mutualização de determinados riscos vem acompanhada de exigências que para fazer parte daquele mútuo é necessário que os riscos sejam mitigados de acordo com uma política única de riscos e seguindo normas e procedimentos específicos para a gestão de riscos, bem como se sujeitar às auditorias periódicas previamente definidas, ou seja, torna-se obrigatório que as empresas mitiguem seus riscos previamente.

 

 

Um dos erros mais comuns na contratação de um programa de seguro é a sua contratação sem que seja feito um trabalho prévio ou em paralelo de mitigação dos riscos. Isto implica no aumento do custo do prêmio do seguro a ser cobrado, haja vista que desta forma, o prêmio está sendo calculado de acordo com o risco puro (não tratado) ao invés de ser calculado de acordo com o risco residual (risco já mitigado). Também é comum que as empresas tomem uma série de medidas para mitigarem seus riscos e não divulgarem para as seguradoras, dificultando assim o processo de avaliação de seus riscos.

É desejável que ao se colocar os riscos no mercado segurador seja feito um Road show que consiste em uma série de apresentações às seguradoras demonstrando quais os riscos e o que se está sendo feito para mitigação dos mesmos.

A ausência de informações às seguradoras tem sido um dos principais fatores para os subescritores aumentarem o valor dos prêmios de seguros durante um processo de cotação. Por mais que existam modelos pré-definidos para a aceitação de riscos, os subescritores necessitam ter a percepção exata de como a empresa trata e controla os seus riscos. Esta avaliação torna-se mais difícil à medida que o subescritor não possui as informações adequadas. Isto faz com que haja mais rigor na avaliação do risco. Poderíamos dizer que na ausência de uma determinada informação para classificar determinado risco, o subescritor tenderá a assumir que o cenário ou as consequências do risco serão maiores. Logo, a ausência de informação e a falta de se demonstrar uma política clara e de mecanismos robustos de gestão de riscos tendem a um agravamento na avaliação do risco, refletindo no valor final da taxa do seguro.

Outra ferramenta a ser utilizada pelo gestor de risco é o aumento da retenção do risco (auto-seguro). Este pode ser total ou parcial e de acordo com cada tipo de risco. Normalmente, esta ferramenta é utilizada para riscos operacionais de baixo impacto e que ocorrem com grande frequência em decorrência de falta de robustez no processo operacional.

Estes riscos supracitados têm por características serem muito caros no mercado segurador e normalmente são cotados no mercado sem que antes tenha sido realizado um trabalho consistente de mitigação dos mesmos. Como as faixas de seguro mais baixas (que cobrem sinistros de menor valor) são consideradas sensivelmente mais caras que as faixas que cobrem riscos de maior valor e que a frequência destes riscos pode apresentar significativa melhoria em decorrência de uma melhoria nos controles dos processos, sugerem que se eleve o valor da franquia à medida que se melhoram os controles destes riscos e obtém-se a diminuição da frequência com que os mesmos ocorrem. Obviamente, à medida que se aumenta a franquia deve-se aumentar o valor em reserva (auto-seguro) para fazer em face de alguma sinistralidade, bem como a qualidade dos controles internos e das medidas e ferramentas de controles dos processos críticos a fim de torná-los mais efetivos.

Ao adotar uma política de aumento da retenção do risco (elevar o valora da franquia para as faixas de menor valor e maior frequência de eventos: working layer), o gestor de riscos deve ter a consciência que a reserva de capital para fazer face a este risco deve ser adequada. Caso ele não tenha esta sensibilidade, ele poderá estar transformando um risco operacional em um risco financeiro devido à falta de reservas ou de geração de caixa para repor a perda.

Recomenda-se fazer um estudo de resiliência financeira / tolerância ao risco antes de se iniciar um processo de aumento do nível de retenção de risco ou auto-seguro. Neste processo, deve-se levantar os principais indicadores de liquidez e de alavancagem financeira da empresa para se ter uma correta fotografia do impacto financeiro de uma perda operacional fora do programa de seguro (abaixo da nova franquia a ser definida).

Cabe ressaltar que quando falamos em auto-seguro no texto acima, na maioria das vezes, estamos nos referindo à definição do ponto de retenção de risco que a empresa que contrata o programa de seguro irá definir. Em outras palavras, está definindo-se os limites da cobertura de seguro, quanto mais alto for o valor da franquia, mais risco está sendo retido pela empresa, ou seja, uma empresa que possui uma franquia de U$35.000,00 significa que os riscos a partir desse valor estão cobertos pelo programa de seguro e que abaixo desse valor a empresa tem que arcar com os custos de qualquer perda até este limite. Isto quer dizer que a empresa retém os riscos até o limite da franquia (neste exemplo U$35.000,00).

Lamentavelmente, existe pouco debate sobre o tema entre os risk managers, as corretoras e as seguradoras aqui no Brasil. Muitas vezes por falta de conhecimento técnico adequado de alguns destes profissionais. Isto acarreta em contratação de coberturas de seguros inadequadas e em uma falta de uma política de gestão de riscos robustas e direcionada para a redução da taxa de sinistralidade de forma consistente e sustentável.

Política de Alocação de Custos de Gestão de Riscos / Seguros

Uma das fases mais complexas é a definição da Política de Alocação de Custos de Gestão de Riscos e de Seguros. Esta política define as diretrizes para a alocação dos custos de gestão de riscos e de seguros por áreas dentro da empresa. Esta política deve ser baseada em modelos de racionais que permitam a premiação para aquelas unidades que vem desenvolvendo um bom trabalho de gestão de riscos e vem atingindo um bom resultado na diminuição do nível de vulnerabilidade e do número de avarias e perdas de suas unidades de negócios.

Um dos erros mais comuns na alocação dos custos de seguros é a divisão do custo de seguro baseado somente no faturamento das unidades de negócio da empresa. Logicamente, que a capacidade financeira de cada unidade para pagar o prêmio do seguro deve ser levada em consideração. Entretanto, utilizar somente este fator cria uma visão míope e uma distorção que não vai levar em consideração os gestores que adotam as boas práticas de gestão de riscos e zelam por manter seus sistemas de proteção adequadamente manutenidos e contribuem com esforço para o desenvolvimento de uma cultura de prevenção de risco adequada.

Pode-se considerar como uma boa prática na política de alocação dos custos do prêmio de seguros a definição de critérios de rateio para as unidades de negócio baseados em ao menos 4 pilares básicos: Faturamento, Valor em Risco, Histórico de Sinistralidade e Índice de Vulnerabilidade.

O Faturamento refere-se à capacidade da unidade em gerar receita e implica diretamente na quantidade de valor movimentado ou armazenado ou produzido pela aquela unidade de negócio. Quanto maior seu faturamento maior a exposição e maior sua capacidade de geração de caixa (normalmente) para pagar os custos de seguro.

O Valor em Risco refere-se aos ativos que estão sendo cobertos pelo seguro. Logicamente, quanto maior o valor em risco da unidade, maior será este reflexo na valoração do prêmio do seguro. Obviamente, deve haver uma coerência entre o valor de cobertura contratada e o Valor em Risco. Não raro encontramos situações em que o Valor em Risco é muito maior que a cobertura contratada ou vice e versa.

O Histórico de Sinistralidade reflete o grau de cuidado de determinada unidade em gerir os seus riscos. É um dos principais balizadores para a definição do valor de prêmio de seguro a ser pago. Este fator, sem dúvidas, deve ser considerado por ocasião da definição do rateio pelas unidades de negócio. Agindo-se desta forma, beneficiam-se as unidades que são mais ciosas com o seu processo de gestão de risco e que causam baixo índice de sinistralidade.

Outra variável importante a ser considerada para a alocação de custos de prêmio de seguro é o Índice de Vulnerabilidade. Este índice permite aquilatar o grau de efetividade dos sistemas de proteção de determinada unidade de negócio. Por conseguinte, permite que os gestores destas unidades sejam encorajados a agirem de forma preventiva no que concerne à prevenção e mitigação dos riscos. Este índice pode ser obtido por meio de auditoria de riscos a serem executadas nas unidades.

Uma sugestão de rateio para a divisão do prêmio de seguro a ser distribuído pelas unidades de negócio seria a adoção da proporção de rateio definida no quadro abaixo:

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